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Ao povo de São Paulo
Furei meu boicote à Virada Cultural. O artista que me fez sair de casa este ano não se apresentou em nenhum palco da sétima edição do mega evento promovido pela prefeitura de São Paulo. Foi meu grande amigo, irmão de correnteza, Roberto Scalia (compositor das belíssimas canções da Nuda) que, de passagem pela cidade, propôs que nos (re)encontrássemos para assistir ao show de Paulinho da Viola.
Desde o confronto entre polícia e público naquele show dos Racionais, que transformou a Sé em praça de guerra em 2007, não participava do evento por motivos diversos: o lixo e o mau cheiro que se acumulam nas ruas, os bêbados inconvenientes, os assaltos e as brigas, minha agorafobia e, principalmente, o fato de que, mesmo com um investimento de R$ 8 milhões neste ano, a estrutura de som ainda seja, inacreditavelmente, o principal problema da Virada…
Mas gosto da proposta de ocupar a cidade com cultura, de trazer o cidadão de volta para as ruas do centro. Não gosto é de isso acontecer apenas durante as 24 horas do evento, enquanto nos demais 364 dias do ano somos reféns de um poder público que abandona a cidade a sua própria sorte e, nos últimos anos, faz de tudo para que não nos sintamos parte dela.
Talvez por isso tenha ficado tão comovida com o protesto espontâneo que testemunhei na Praça da República na tarde deste domingo. Com mais de 20 minutos de atraso para o início do show de Paulinho da Viola, as caixas de PA ainda falhando na passagem de som, a multidão que aguardava o lord do samba em frente da Secretária Estadual de Educação gritava em coro: “Ei, Kassab, vai tomar no cu!”.
A todos que estavam lá e manifestaram seu descontentamento com o descaso com que nosso prefeito nos trata, meus sinceros agradecimentos. É por devolver aos cidadãos o espaço público que é nosso por definição que a ideia da Virada Cultural merece ser levada adiante, discutida e melhorada – e quiçá, um dia, ela se transforme numa real política de cultura e ocupação urbana.
