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Internet, bibliotecas e fonotecas públicas

Na última quinta-feira, 17 de maio, saiu do ar o site Livros de Humanas, que há três anos permitia download gratuito de livros esgotados ou difíceis de encontrar na área de ciências humanas. O motivo? Uma notificação judicial da ABDR (Associação Brasileira dos Direitos Reprográficos).

A discussão toda, que agora aflige o mercado editorial, já é velha conhecida dos aficcionados por música. Um artigo no Opinião e Notícia explica melhor a história e pontua o fato de membros da comunidade acadêmica sairem em defesa do site. A declaração de Eduardo Sterzi, em especial, me chamou a atenção:

Sites de compartilhamento de livros têm de ser vistos e respeitados como bibliotecas. É o que eles são. Combatê-los é fomentar a ignorância

Me parece bastante clara (indiscutível, até) a analogia.

A fala de Sterzi me lembrou de quando fazia meu trabalho de conclusão de curso, em 2002. Pesquisava a história do pop rock em Portugal e, além de não ter bibliografia disponível para embasar meu trabalho (que virou um livro reportagem construido basicamente pelas entrevistas que fiz à época), também era complicado o acesso aos discos.

Pensa que, há 10 anos, a oferta de informação na internet era bem menor. Quase não se encontrava material de artistas portugueses para baixar nas redes P2P. O YouTube nem existia (só foi criado em 2005).

Meu trabalho só foi possível graças à preciosa ajuda de amigos e artistas que me emprestaram discos de suas coleções particulares e à FONOTECA MUNICIPAL DE LISBOA. Durante mais de um mês me enfurnei por várias horas em uma salinha com fones de ouvidos, escutando sons e fazendo anotações. O acervo não era completo e não me permitiam fazer cópias do material, mas foi fundamental para tomar contato com parte das obras das quais eu ouvia histórias.

Quando voltei para cá, me perguntava se existiam fonotecas no Brasil. Eu não sabia de nenhuma. Depois, pesquisando, descobri que havia algumas poucas por aí. Pouco frequentadas – como, aliás, também são nossas bibliotecas.

Não me lembro de nas discussões sobre arquivos de música fonotecas terem sido mencionadas, como agora se faz com bibliotecas. Talvez tenha a ver com uma visão (reducionista) de que livros são informação e fonogramas são produtos…

Mas é evidente o contraste entre o vazio nos espaços físicos e o sucesso do espaço virtual na tarefa de compartilhar conhecimento.

Seria interessante que, em vez de criminalizar iniciativas que visam APENAS a circulação de informação, o poder público (e outras instituições interessadas no assunto) proporcionasse acesso livre e remoto à TODO o conhecimento e bens culturais guardados em prateleiras empoeiradas.